vida

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Querer que a vida humana seja sempre dirigida pela razão, é destruir, por esse mesmo fato, a vida.

(Leão Tolstói)

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ignore a memória coagulada na garganta

siga a ordem dos sintagmas

pense despotência
minta engane aprenda-se

seja óbvio objetivo prático

não dê o devido valor ao café
dê o delito favor à fé

por higiene e saúde
lave seus livros
com hipoclorito de sódio

seja plurissílabo

bata na porta dos fundos
abuse do por favor
do obrigada
do sinto muito

não beba
não fume
não fuja
não babe
não grite
não grave

finja
o tom de voz daquela pessoa

esqueça

não escreva

mantenha a calma
a cama arrumada
desengatilhe a arma
faça a barba
faça um plano
limpe o quarto
lave o prato
vista branco

suporte o sufoco
dos prefixos
a an dis des in i

engula todos os anfíbios

e feche em si
a porta hospício

ao entrar

Créditos da imagem:
foto por Aaron Nace

(fonte)

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Onda que vais morrendo em nova onda,
mar que vais morrendo noutro mar,
assim a minha vida se desprenda e do meu sumo
escorra a vida para as bocas que se finam
de desejar.

Ó dia que vais escoando como os rios
e empalideces rostos e cabelos,
traze a palavra para a incerteza
dos que vagueiam à deriva;
a bandeira amarela se rasgue
e dos farrapos se gere outra cor.

Ó dia correndo e findando,
some-te lá no cimo da fraga
mas deixa que no teu rasto fique o sangue
anunciando a esperança noutro dia.

Sê como a onda que morre para outra começar.

(Fernando Namora)

Fernando Namora

(fonte)

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Naturalmente, quem sou eu para que Deus
cumprisse em minha vida promessa tão perfeita,
e no entanto ei-Lo arando, limpando os olhos meus,

fazendo-os ver que, no trigal em que se deita
a luz dourada e musical, se algo perdeu-se
foi como o grão – entre a seara e a colheita.

(Bruno Tolentino, em A imitação do amanhecer. São Paulo: Editora Globo, 2006. Pág. 25)

Bruno Tolentino

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Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.

Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.

Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.

Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.

Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.

Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.

(Francisco Carvalho)

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O tempo nos desfolha
com sua foice de murmúrios

somos o rebanho de cabras
pastando o caos

somos os tufos de relva
nas frestas da rocha
batida pelo mar

onde a nau de Ulisses
ainda ancora

somos a escória do mito
a rota em que navega
a nossa penúria.

(Francisco Carvalho)

Francisco Carvalho

Faleceu dia 5 de março de 2013, em Fortaleza, aos 85 anos. Cearense de Russas, onde nasceu em 11 de junho de 1927, Francisco Carvalho publicou mais de 30 livros e recebeu diversos prêmios, entre eles, o Nestlé de Literatura, em 1982, e o da Fundação Biblioteca Nacional, em 1997. Teve alguns de seus poemas musicados pelo cantor e compositor cearense Raimundo Fagner. Era membro da Academia Cearense de Letras.

(Fonte)

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– O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

(João Cabral de Melo Neto)

João Cabral de Melo Neto

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Que podemos encontrar força, verdade, coragem, nos livros, é claro que concordo; mas encontraremos tanto mais isso tudo quanto menos tivermos ilusões sobre eles e, aliás, sobre a vida. É o seguinte: gosto da literatura e da filosofia por sua carga de desilusão; como poderia gostar dos livros que se alimentam (até ficarem obesos!) com a ilusões que têm a seu próprio respeito? Gosto dos livros pela verdade que desvelam; como poderia gostar dos que apenas acrescentam um véu a mais, ainda que este seja suntuoso ou raro? Gosto dos livros que se põem a serviço da vida; como poderia gostar mais deles do que dela, ou deles no lugar dela?

(André Comte-Sponville)

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Haverá maior falso
que imaginar-se alguém vivo?

(Carlos Drummond de Andrade)

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Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.

(Vladimir Maiakóvski)

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