Vida

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Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.

Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.

Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.

Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.

Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.

Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.

(Francisco Carvalho)

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– O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

(João Cabral de Melo Neto)

João Cabral de Melo Neto

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Isso não quer dizer que os livros não sirvam para nada. Eles nos ensinam coisas, podem até nos ensinar um pouco, quando são grandes livros, a viver e a amar. Mas, mesmo então, não são essenciais: só valem a serviço da vida.

(André Comte-Sponville)

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Que podemos encontrar força, verdade, coragem, nos livros, é claro que concordo; mas encontraremos tanto mais isso tudo quanto menos tivermos ilusões sobre eles e, aliás, sobre a vida. É o seguinte: gosto da literatura e da filosofia por sua carga de desilusão; como poderia gostar dos livros que se alimentam (até ficarem obesos!) com a ilusões que têm a seu próprio respeito? Gosto dos livros pela verdade que desvelam; como poderia gostar dos que apenas acrescentam um véu a mais, ainda que este seja suntuoso ou raro? Gosto dos livros que se põem a serviço da vida; como poderia gostar mais deles do que dela, ou deles no lugar dela?

(André Comte-Sponville)

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meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias;
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.

(João Cabral de Melo Neto)

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Haverá maior falso
que imaginar-se alguém vivo?

(Carlos Drummond de Andrade)

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Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.

(Vladimir Maiakóvski)

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Se morrer, nesta vida, não é novo,
Tampouco há novidade em estar vivo.

(Sierguéi Iessiênin)

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Para estar junto não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro.

(Leonardo da Vinci)

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― Pronto, chegamos ― disse Nikita. ― Só que não sabemos onde.

(Leon Tolstói)

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